Dicas para escrita científica em inglês
A escrita científica em inglês representa um grande desafio para muitos estudantes de medicina, especialmente para aqueles cuja língua nativa é o português. A dificuldade frequentemente começa no momento de estruturar as primeiras frases do artigo, aliada à insegurança quanto ao vocabulário e às construções gramaticais adequadas ao discurso científico. Nesse contexto, torna-se essencial o contato contínuo com bons artigos científicos, permitindo que o estudante se familiarize com estruturas recorrentes, estilo de escrita e terminologia específica. A criação de um arquivo pessoal com expressões e estruturas extraídas de artigos bem escritos, o aprendizado constante de novas palavras e a prática de elaborar resumos diretamente em inglês — evitando a tradução literal do português — são estratégias fundamentais para o desenvolvimento de uma escrita científica mais clara, objetiva e adequada aos padrões internacionais.
Além das estratégias já citadas, outras práticas podem contribuir significativamente para aprimorar a escrita científica em inglês:
• Utilizar modelos (templates) de artigos científicos, especialmente de revistas conceituadas, para compreender a organização padrão de cada seção (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão).
• Aprender frases e expressões acadêmicas comuns, como “The aim of this study was…”, “Our results suggest that…”, evitando traduções literais do português.
• Escrever de forma simples e objetiva, priorizando frases curtas e claras, o que reduz erros e melhora a compreensão do texto.
• Revisar o texto várias vezes, focando em diferentes aspectos a cada revisão (gramática, clareza, coerência e estilo).
• Utilizar ferramentas de apoio, como corretores gramaticais e editores de estilo acadêmico, para identificar erros e sugestões de melhoria.
• Solicitar feedback de professores, colegas ou pesquisadores mais experientes, preferencialmente com domínio da escrita científica em inglês.
• Praticar a escrita regularmente, mesmo fora do contexto de artigos completos, como pequenos parágrafos científicos ou comentários sobre leituras recentes.
Uma forma de criar um esqueleto de seu trabalho é começar com esse passo:
1. Entenda a pesquisa;
2. Entenda os resultados da pesquisa;
3. Escreva diretamente os resultados;
4. REVISE: estilo, elegância, corte sem piedade.
Dicas:
1. Use verbos FORTES;
1.1 Verbos fracos: to be, provide, show, take, make;
2. Não os transforme verbos FORTES em substantivos FRACOS;
3. Não distancie o verbo principal da frase do sujeito, usando uma longa oração subordinada substantiva (isso é muito comum na linguagem em português);
4. Use voz ativa (exceto na seção métodos onde parece ser mais bem vinda);
5. Escreva de forma fácil e apreciável;
6. Corte palavras/frases desnecessárias (advérbios, extras, repetitivas, longas, preposições);
7. Evite palavras vagas (physiologic, molecular species);
8. Acrônimos/siglas:
8.1 Usar apenas acrônimos/siglas já conhecidas: HIV, RNA, DNA.
8.2 Evite criar novos. Não há problema em repetir termos durante todo o texto – isso não é motivo para você criar do nada uma sigla.
8.3 Quando citar, definir no abstract, no texto e nas tabelas/figuras.
9. Evitar:
9.1 Construções como: has been related to, is associated with, there is/are verbo 9.2 Frases com negação. Tente transformar a frase negativa em uma afirmação.
9.3 Abusar das palavras de transição (although, moreover, nevertheless, …), mas use sem medo o and e o but.
9.4 Pesquisar palavras para usar como sinônimos. Se você pesquisa na internet um sinônimo para não repetir uma palavra, é porque essa palavra sinônimo pesquisada é desnecessária. Nomes de grupos/variáveis/medidas são necessárias – Repita!
Processo de escrita:
1. Pré-escrita (70% do tempo):
1.1 Coletar, sintetizar, organizar (frases/citações/informações/ porcentagens/autores/dados/ideias) no word antes de escrever.
1.2 Trabalhar ideias fora do computador, realizar brainstorm.
1.3 Desenvolver mapa mental, decidir as seções do texto.
1.4 Salvar os artigos em pasta das referências.
2. Primeiro esboço (draft; 10% do tempo):
2.1 Organizar ideias e fatos em forma de prosa.
2.2 Não ser perfeccionista, fazer sentenças completas e em ordem.
2.3 Focar na lógica das ideias e não em detalhes.
2.4 Processo rápido e eficiente, sem elegância.
3. Revisão (20% do tempo):
3.1 Ler em voz alta, cortar o desnecessário.
3.2 Checar os verbos.
3.3 Revisão organizacional (fluxo de ideias principais de cada parágrafo).
3.4 Enviar para colegas (feedback), ou até mesmo para o editor.
3.5 Cortar frases mortas, vazias; encurtar frases longas.
Nessa fase, você pode solicitar o feedback aos amigos: Qual a ideia principal do texto? Quais as mensagens para levar para casa? Qual a significância do trabalho? Apontar frases/parágrafos difíceis de ler/entender.
Algumas partes do artigo podem ter dicas específicas:
1. Tabelas e figuras:
1.1 Tente colocar a menor quantidade possível de figuras e tabelas no seu texto.
1.2 Não repetir as informações que estiverem no texto escrito. E vice-versa, não precisa citar todas as informações que já estão apresentadas na tabela.
1.3 Footnotes = servem para explicar diferenças estatísticas, detalhes do experimento (ex. ataxia foi considerada com a presença de ataxia de marcha ou apendicular), explicar siglas.
1.4 Seguir os padrões que a revista orientar.
1.5 Exemplo de tabela padrão:
Table 1. Descriptive characteristics of the study groups, means ± SD or N (%).
| Characteristic | Group 1 | Group 2 |
| N | 13 | 12 |
| Age (years) | 45 ± 5 | 36 ± 6* |
| Smoker (yes/no) | 6 (50%) | 0 (0%)* |
*p<.05, t-test or Fisher’s exact test, as appropriate.
Smoker was defined as the smoking habit greater than 1 cigarette a day, by at least 3 months.
1.6 Dar unidades às características entre parênteses (no exemplo acima: years, yes/no);
1.7 Menor quantidade de colunas possíveis;
1.8 Não precisa aprofundar em casas decimais (maioria dos dados pode apresentar sem casas decimais).
1.9 Legendas de uma figura (permite que a figura conte sua história sozinha):
1.9.1 Título curto.
1.9.2 Detalhes essenciais do experimento – não precisar voltar ao texto.
1.9.3 Definições: linhas ou barras, símbolos, cores.
1.9.4 Explicação dos painéis;
1.9.5 Informação estatística utilizada: testes, valor p.
2. Introdução:
2.1 Basta escrever entre 2 e 5 (em geral, 3) parágrafos, focar na hipótese/objetivo principal do estudo.
2.2 Parágrafos curtos.
2.3 Seguir o raciocínio: do conhecido (background – parágrafo 1) → desconhecido (informação desconhecida; parágrafo 2) → Parágrafo 3: hipótese / propósito (aim/hypothesis) → plano de ataque, solução proposta.
2.4 Escreva para um público geral: linguagem clara, concisa e não técnica.
2.5 Dar ênfase ao que estudo vai acrescentar aos prévios.
2.6 Detalhes, especulações e críticas deixar para a discussão.
3. Métodos
3.1 Visão clara do que foi feita, suficiente para reprodução.
3.2 Se necessário, crie subtópicos.
3.3 Use diagrama para entender etapas.
3.4 Pode usar mais jargão e voz passiva aqui (ênfase no método ou variável).
3.5 Responda as perguntas o que? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?
3.6 Cite os materiais, participantes/sujeitos, protocolo experimental / desenho de estudo, medidas e instrumentos para medi-las, análises.
3.7 Usar verbos no passado.
3.8 Usar presente para afirmar a forma como os dados são apresentados no artigo.
4. Resultados
4.1 Não é necessário citar TODOS os dados; resumir os principais achados.
4.2 Não repetir os dados que já estão em tabelas, na forma de texto (a função da tabela é resumir e evitar grande quantidade de texto nos resultados).
4.3 Apresentar em alto nível quais as principais diferenças que podem ser observadas nas tabelas.
4.4 Se necessário, use subtópicos
4.5 Só apresente números se eles NÃO estiverem presentes nas tabelas/figuras; ou então apresente porcentagens ou diferenças de porcentagens, se os valores absolutos estiverem nas tabelas.
4.6 Não explicar o racional do método estatístico – quem lê artigo científico sabe o significado de cada teste.
4.7 Escrever também resultados negativos ou do grupo controle.
4.8 Comentários devem ser guardados para a discussão.
4.9 Usar verbos no passado para ações completas; usar verbos no presente se falar de tabelas ou dados.
4.10 Raramente usar o “we”.
4.11 Pode escrever números por extenso.
